
Apneia do sono
Apneia do sono e pressão alta: qual é a relação
A apneia obstrutiva do sono é frequente em quem tem pressão alta, principalmente quando a pressão é difícil de controlar. Entenda a relação e quando investigar.
A apneia obstrutiva do sono e a pressão alta andam juntas com frequência. As pausas na respiração durante a noite derrubam a oxigenação do sangue e ativam o sistema nervoso simpático, o que contribui para elevar a pressão. Pelas Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial, cerca de 56% das pessoas com hipertensão têm algum grau de apneia, e entre as que têm hipertensão resistente essa proporção passa de 60%.
O que acontece no corpo durante uma apneia
Na apneia obstrutiva, a garganta se fecha total ou parcialmente durante o sono. O corpo faz força para respirar contra a via aérea fechada, o oxigênio no sangue cai e o sono é interrompido. Isso se repete muitas vezes por noite.
A diretriz brasileira cita alguns mecanismos que ligam esse processo à pressão alta:
- Ativação do sistema nervoso simpático, o mesmo que acelera o coração em situações de estresse.
- Quedas repetidas da oxigenação, chamadas de hipóxia intermitente.
- Inflamação no organismo e aumento de substâncias que agridem os vasos (espécies reativas de oxigênio).
- Disfunção do endotélio, a camada que reveste os vasos por dentro.
O que os estudos mostram
Um dos estudos mais conhecidos acompanhou 709 adultos no estado de Wisconsin, nos Estados Unidos, por quatro anos. Quem tinha 15 ou mais eventos de apneia e hipopneia por hora no início teve chance cerca de 2,9 vezes maior de estar com hipertensão quatro anos depois, em comparação com quem não tinha eventos. A relação foi do tipo dose e resposta: quanto mais eventos, maior a chance, mesmo depois de considerar peso, idade, álcool e cigarro.
A diretriz brasileira resume o mesmo achado: os graus leve, moderado e grave da apneia mantêm relação de dose e resposta com a hipertensão. Ela também aponta que a combinação de apneia e pressão alta está ligada a mais lesão de órgãos como coração, rins e vasos do que a pressão alta sem apneia.
A Associação Americana do Coração (AHA) estima que a apneia esteja presente em 40% a 80% das pessoas com hipertensão, insuficiência cardíaca, doença coronária, hipertensão pulmonar, fibrilação atrial e AVC.
Hipertensão resistente: quando pensar em apneia
Hipertensão resistente é a pressão que continua difícil de controlar mesmo com vários remédios. Um estudo feito em São Paulo com 125 pacientes nessa situação encontrou apneia obstrutiva (15 ou mais eventos por hora) em 64% deles. Foi a condição mais comum associada à hipertensão resistente, bem à frente das outras causas investigadas.
No mesmo estudo, três sinais ajudaram a prever a apneia: idade acima de 50 anos, pescoço largo (41 cm ou mais nas mulheres e 43 cm ou mais nos homens) e ronco. Por isso, a AHA recomenda investigar apneia em pessoas com pressão alta resistente ou mal controlada.
Na hipertensão, a apneia pode existir mesmo sem sonolência durante o dia.
A diretriz brasileira chama atenção para esse ponto. A sonolência diurna muitas vezes não aparece em quem tem hipertensão, principalmente na resistente, e os questionários de triagem funcionam pior nesse grupo. Um sinal útil vem da MAPA, o exame que mede a pressão ao longo de 24 horas: quando a pressão durante o sono fica mais alta do que durante o dia, a chance de apneia aumenta cerca de três a quatro vezes.
Tratar a apneia ajuda a baixar a pressão?
Ajuda, mas o efeito costuma ser modesto. Segundo a diretriz brasileira, o CPAP é o tratamento de escolha para a apneia, principalmente nos casos moderados e graves. Em média, ele reduz a pressão em torno de 2 a 3 mmHg. Em quem tem hipertensão resistente, a redução tende a ser maior, em torno de 5 mmHg, mas em geral não basta para controlar a pressão sozinho.
O estudo espanhol HIPARCO acompanhou 194 pessoas com hipertensão resistente e apneia moderada a grave. Depois de 12 semanas, o grupo que usou CPAP teve queda maior da pressão média de 24 horas e da pressão diastólica do que o grupo sem CPAP. Mais pacientes recuperaram a queda normal da pressão durante a noite, e quanto mais horas de uso por noite, maior foi a redução.
Isso mostra a importância do uso regular. Uma boa adaptação e acompanhamento nas primeiras semanas faz diferença, e vale ler sobre a adaptação ao CPAP nas primeiras semanas.
CPAP não substitui o remédio da pressão
A diretriz brasileira deixa claro que os dois tratamentos se completam. Os remédios para pressão parecem reduzir mais a pressão do que o CPAP sozinho, mas não melhoram a apneia nem os sintomas ligados a ela. Já a combinação de CPAP com os remédios traz benefícios extras, principalmente na pressão durante a noite.
Por isso, nunca pare ou mude o remédio por conta própria ao começar o CPAP. Qualquer ajuste é feito pelo médico, com base nas medidas da pressão.
Como investigar
Se você tem pressão alta e ronca, se alguém já percebeu pausas na sua respiração ou se a pressão segue difícil de controlar, converse com o médico sobre a apneia. O diagnóstico é feito com um exame do sono, e o médico indica qual é o mais adequado para o seu caso.
Para quem recebe a indicação, a polissonografia domiciliar permite fazer o exame dormindo em casa. Os sinais que levam à investigação estão em ronco e apneia do sono. Se o exame confirmar apneia e o médico indicar o aparelho, é possível comprar ou alugar o CPAP: veja como funciona a venda e locação de CPAP e BIPAP. Sem diagnóstico e indicação médica, o CPAP não deve ser usado.
Referências
- Barroso WKS, Rodrigues CIS, Bortolotto LA, et al. Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial, 2020. Arq Bras Cardiol. 2021;116(3):516-658. doi.org/10.36660/abc.20201238
- Peppard PE, Young T, Palta M, Skatrud J. Prospective study of the association between sleep-disordered breathing and hypertension. N Engl J Med. 2000;342(19):1378-1384. doi.org/10.1056/NEJM200005113421901
- Pedrosa RP, Drager LF, Gonzaga CC, et al. Obstructive sleep apnea: the most common secondary cause of hypertension associated with resistant hypertension. Hypertension. 2011;58(5):811-817. doi.org/10.1161/HYPERTENSIONAHA.111.179788
- Martínez-García MA, Capote F, Campos-Rodríguez F, et al. Effect of CPAP on blood pressure in patients with obstructive sleep apnea and resistant hypertension: the HIPARCO randomized clinical trial. JAMA. 2013;310(22):2407-2415. doi.org/10.1001/jama.2013.281250
- Yeghiazarians Y, Jneid H, Tietjens JR, et al. Obstructive Sleep Apnea and Cardiovascular Disease: A Scientific Statement From the American Heart Association. Circulation. 2021;144(3):e56-e67. doi.org/10.1161/CIR.0000000000000988
Conteúdo informativo. Não substitui a consulta: o diagnóstico e a indicação de tratamento são feitos pelo médico.




